ou pra onde ir
É engraçado pensar na vida, ainda mais em dias de chuva, há pouca poesia, e a fagulha latente de poesia acaba por nos entristecer.
É engraçado ver a vida do alto de uma ponte, por exemplo, aquelas que cruzam mar, ou rio, você para, olha, ouve... uma mistura louca de quês, concreto e água sob seus pés, sobre sua cabeça um céu macilento, carregado de medo, água que pode vir turva, vir pesada, levar corro, casa, escada..., é foda pensar na vida.
Hoje me vejo no meio de uma ponte, bem no meio dela, olho de um lado o horizonte infinito, do outro lado se repete o desenho, o mesmo céu negro, o mesmo concreto e água sob mim. É esquisito me sentir assim, dou um passo pra frente, volto dois, ou apenas um. Paro novamente, tento refletir, qual caminho seguir. Que diferença faz. Não sei, e nem tenho pra onde ir. Fico parado vendo as poucas aves que singram o asfalto do céu, e as ondas que se estilhaçam aos meus pés.
Uma coisa eu sei, pra onde eu for vou sozinho.
Escrevi uma vez num discurso, a vida não é pra ser fácil, porra, mas podia ser menos complicada, não é. Por que tudo tem de ser assim, pesado, escuro. Por que não podemos simplesmente viver, sem ter que estarmos presos aos laços sócio-culturais que regem mentiras e instituições falidas, o que são as edificações da moral, da ética e do compromisso. O que são, há tantos cegos pedindo esmolas em escadarias de igrejas, e tantas pessoas se prostituindo por sentimentos.
Às vezes penso que viver é um estágio letárgico.
Eu queria ser um camelo, solto claro. Eu queria ser um camelo e navegar as dunas do deserto, queria ser um cachalote e singrar oceanos, eu queria muito ser uma gaivota e voar a imensidão linda do horizonte. Eu queria ter no peito um cântaro e nele ao invés de lágrimas, transbordar amor próprio e felicidade.

Mas a pergunta continua... para que lado devo seguir.
Flávio Mello
03/12/2009
2h 15min